Fichamento do texto do Módulo I - “Totem e Tabu”



A ORIGEM DA EXOGAMIA E SUA RELAÇÃO COM O TOTEMISMO
[...] Um acontecimento como a eliminação do pai primevo pelo grupo de filhos deve inevitavelmente ter deixado traços inerradicáveis na história da humanidade e, quanto menos ele próprio tenha sido relembrado, mais numeroso devem ter sido os substitutos a que deu origem. [...]
[...] Resistirei à tentação de apontar esses traços na mitologia, onde não são difíceis de encontrar, e voltar-me-ei noutra direção, aceitando a sugestão feita por Salomon Reinach num ensaio muito instrutivo sobre a morte de Orfeu. [...]
[...] Não poderá o mesmo ser verdade quanto aos homens primitivos? Temos justificativas para acreditar que, como um dos fenômenos de sua organização narcisista, eles supervalorizam seus atos psíquicos a um grau extraordinário. Consequentemente, o simples impulso hostil contra o pai, a mera existência de uma fantasia - plena de desejo de matá-lo e devorá-lo, teriam sido suficientes para produzir a reação moral que criou o totemismo e o tabu. Desta maneira, evitaríamos a necessidade de atribuir a origem de nosso legado cultural, de que com justiça nos orgulhamos, a um crime odioso, revoltante para todos os nossos sentimentos. Nenhum dano seria assim feito à cadeia causal que se estende desde os começos aos dias atuais, pois a realidade psíquica seria suficientemente forte para suportar o peso dessas consequências. [...]
A função paterna é objeto de estudo e articulação da Psicanálise tanto nos postulados de Freud, bem como na visão Lacaniana. É uma figura que desestabiliza uma relação imaginária e faz gerar a falta, o desejo e um sujeito, onde antes havia a completude total e um objeto.
A cultura que emerge, faz nascer conceitos que reina no meio social, e são estudadas pelas ciências que tratam da antropologia e sociologia voltando-se `s relações humanas, em todos o seus aspectos cotidiano, porém, sob o ponto de vista da psicanálise, a função paterna, enquanto ação, utilidade, posição e papel, permite o surgimento do desejo, que por via de consequência se baseia no sujeito.
 Sob o ponto de vista da Antropologia, a cultura – enquanto um complexo de padrões, de comportamento, de crenças, das instituições, dos hábitos e costumes, de valores materiais e espirituais – é responsável pela existência das sociedades e da civilização. Assim sendo, é possível se articular, que a função paterna está para a ontogênese, assim como a cultura está para a filogênese.
Freud por assimilação pessoal desta metodologia, a utilizava na análise crítica de todos os elementos culturais, quer sejam expressões sobre obras de arte, a cultura em torno de uma comunidade, o comportamento  coletivo da sociedade eo funcionamento psíquico dos indivíduos.
[...] Em nosso exame analítico dos problemas do tabu, consideramos até aqui os pontos de concordância que podemos demonstrar existir entre ele e a neurose obsessiva. Mas, em última análise, o tabu não é uma neurose e sim uma instituição social. Por conseguinte, devemos explicar que diferença existe, em princípio, entre uma neurose e uma criação cultural como é o tabu. [...]
[...] Mais uma vez tomarei um fato isolado como ponto de partida. Existe, entre os povos primitivos, o temor de que a violação de um tabu seja seguida de uma punição, em geral alguma doença grave ou a morte. A punição ameaça cair sobre quem quer que tenha sido responsável pela violação do tabu. Nas neuroses obsessivas, o caso é diferente. O que o paciente teme, se efetuar alguma ação proibida, é que o castigo caia não sobre si próprio, mas sobre alguma outra pessoa. [...]
Quando se analisa o comportamento de um grupo, admite-se em primeiro plano, que trabalhe em harmonia em consonância com os seus objetivos, porém, na hipótese  de uma ocorrência incidental, os efeitos reverbera entre os demais e proporciona reações consequentes pelo efeito da influência e compromete suas ações.
Por outro lado, se o indivíduo membro de um grupo, em posição dissociada dos demais membros do grupo, ou seja, de forma isolada, tem comportamento ameno e diferenciado, ou age de forma diferente e espontânea ditada por suas próprias convicções pessoais, mesmo que em total distorção às reações grupal, pode vir a ser no sentido do acatamento e ser admitida uma nova ordem grupal.
Isto decorre quando há quebra de tabus construídos culturalmente no meio social e que o castigo caia não sobre si próprio, mas sobre alguma outra pessoa do meio social.
 [...] Os homens primitivos e os neuróticos, como já vimos, atribuem uma alta valorização – a nossos olhos, uma supervalorização - aos atos psíquicos. Essa atitude pode perfeitamente ser relacionada com o narcisismo e encarada como um componente essencial deste. Pode-se dizer que, no homem primitivo, o processo de pensar ainda é, em grande parte, sexualizado. Esta é a origem de sua fé na onipotência dos pensamentos, de sua inabalável confiança na possibilidade de controlar o mundo e de sua inacessibilidade às experiências, tão facilmente obteníveis, que poderiam ensinar-lhe a verdadeira posição do homem no universo. [...]
[...] Na tragédia grega, o tema especial da representação eram os sofrimentos do bode divino, Dionísio, e a lamentação dos bodes seus seguidores, que se identificavam com ele. Assim, sendo, fácil compreender como o drama, que tinha se extinguido, voltou a brilhar com nova vida na Idade Média, em torno da Paixão de Cristo. [...]
[...]Ao concluir, então, esta investigação excepcionalmente condensada, gostaria de insistir em que o resultado dela mostra que os começos da religião, da moral, da sociedade e da arte convergem para o complexo de Édipo. Isso entra em completo acordo com a descoberta psicanalítica de que o mesmo complexo constitui o núcleo de todas as neuroses, pelo menos até onde vai nosso conhecimento atual. [...]
[...]Ao concluir, então, esta investigação excepcionalmente condensada, gostaria de insistir em que o resultado dela mostra que os começos da religião, da moral, da sociedade e da arte convergem para o complexo de Édipo. Isso entra em completo acordo com a descoberta psicanalítica de que o mesmo complexo constitui o núcleo de todas as neuroses, pelo menos até onde vai nosso conhecimento atual. Parece-me ser uma descoberta muito surpreendente que também os problemas da psicologia social se mostrem solúveis com base num único ponto concreto: - a relação do homem com o pai.[...]
É nesta tragédia da lenda grega do rei Édipo,  que ‘fadado pelo destino a matar seu pai e desposar sua mãe’. É nessa tragédia de Sófocles que Freud se apoia para construir a teoria do Complexo de Édipo, processo de constituição a que estão afetos a todos os indivíduos.
Freud em seus estudos declara que poucos dos achados da psicanálise tiveram tanta contestação universal ou despertaram tamanha explosão de indignação como a afirmativa de que a função sexual se inicia no começo da vida e revela sua presença por importantes indícios mesmo na infância.
“O complexo de Édipo é a “experiência central dos anos da infância, o maior problema do início da vida e a fonte mais intensa de inadequação posterior” (Freud, 1940/1996, p. 205). Toda criança está destinada a passar por ele, uma vez que ele decorre inevitavelmente do fato dela ser cuidada por um adulto, que participa ativamente desse processo. Sobre a importância dos pais no ‘despertar’ do Complexo de Édipo nos diz Freud:“... os próprios pais frequentemente exercem uma influência decisiva no despertar da atitude edipiana da criança, ao cederem ao empuxo da atração sexual,... onde houver várias crianças, o pai dará definidas provas de sua maior afeição por sua filhinha e a mãe por seu filho” (Freud, 1917/1996, p. 337).
Ao descrever o Complexo de Édipo, Freud, inicialmente (1917/1996), supõe uma equivalência desse fenômeno nos meninos e nas meninas. Assim, o  menino escolhe sua mãe como objeto e seu pai é tido como ‘entrave’ nessa relação. Com as meninas, o processo é o mesmo: interesse pelo sexo oposto e ódio pelo mesmo sexo. Seu “objeto de amor é o pai e há uma necessidade de eliminar a mãe, por julgá-la sua rival.”

Bibliografia:
SPERANO, Maria Cristina de Távora. Epistemologia da Psicanálise [recurso eletrônico] / Maria Cristina de Távora Sperano. – Dados eletrônicos. - Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, Secretaria de Ensino a Distância, 2017.

ZANOTTI,Susane V. Zanotti. Laboratório de Ensino - "A DISSOLUÇÃO DO COMPLEXO DE ÉDIPO" (1924), em http://www.isepol.com/dissolucao_edipo.html, em 10/04/208.

FREUD, S. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade Infantil. In: Edição Standard Brasileira das Obras completas de Sigmund FreudTotem e Tabu. Tradução Órizon Carneiro Muniz. Rio de Janeiro: Imago, 1974b. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XIII)

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